quinta-feira, 6 de maio de 2010

FUNDAMENTAL - (conto)



Se olhava no espelho e mal podia acreditar no que via. Errado é aquele que julga que a beleza não pode ser comprada. A prova de que o belo podia ser alcançado pela mão do homem, não só a de Deus, estava refletida naquele espelho, um corpo esculpido e entalhado com suavidade e perfeição, provido por um bocado de dinheiro. Agora ela sentia-se apta.

Conferiu o passaporte e as duas passagens para França, entrou no taxi que a levaria ao aeroporto sentindo-se duplamente realizada.

Ela havia deixado definitivamente três coisas para trás em sua vida: a pobreza, a feiúra e a ingenuidade.

Se a vida era justa, se Deus era bom, se o destino era determinado ou se a sorte era determinante, nada disso tinha a menor importância para ela, essas questões quase filosóficas não cabiam mais em sua vida.

Antes de transformar-se fisicamente em uma mulher atraente, sua vida havia sido de muito sofrimento, tanto pela falta de dinheiro quanto pela aparência, considerada fora dos padrões de beleza, em seu caso, muito fora deste padrão.

Em sua adolescência, na escola e depois na faculdade, sempre sofreu muito com perseguições e maus tratos velados, se não fosse inteligente a ponto de ter bolsas de estudo, certamente teria pensado em suicídio. Por sorte sua inteligência era inversamente proporcional a aparência. 

Sempre que era humilhada, ou preteria, recorria em fuga à sétima arte, onde nos fabulosos filmes hollywoodianos ela era remida. Na tela, via acontecer com seus iguais algo que nunca pensou ser possível na vida real, mas agora ela acreditava nessa possibilidade, inclusive era a prova viva disso. Se a vida imita a arte ou vice-versa, não importava, agora ela não perdia mais tempo no mundo de ficção, sua vida estava mais interessante que eles.

Eduardo Contreiras Rau, esse era um nome que não conseguiria esquecer mesmo que quisesse. Durante os anos da faculdade de jornalismo, ele era quase uma unanimidade em termos de beleza e sex appeal, proporcionalmente presunçoso e arrogante. Por mais de uma dezena de vezes ela pensou em deixar o curso por culpa de suas brincadeiras maldosas e suas perseguições dissimuladas em frases espirituosas, desrespeitosas e politicamente incorretas. Cada vez que ele a humilhava disfarçadamente, a classe em êxtase louvava a presença de espírito do jovem promissor. O que ela sentia não era relevante, cada qual com seu papel naquele circo.

Há pouco mais de um mês ela soube que ele estava noivo e que em breve se casaria com uma outra jornalista igualmente bela e em ascensão. Lendo a noticia na coluna social não teve duvidas, havia aprendido a lição no filmes, conhecia o clichê a ser cumprido. Não foi difícil executar a vingança, as portas que a beleza não conseguiu abrir, o dinheiro arrombou.

Na sala VIP do aeroporto ela conferiu novamente os passaportes e os documentos. Como nos filmes, ela também havia apaixonado-se nos meandros da revanche, e também como nos romances isso quase a atrapalhou, mas o final feliz era inevitável. A fabula tinha começo, meio e fim.

Ao se encontrarem já na hora do embarque o beijo apaixonado foi inevitável, mesmo que preferisse a discrição, resquícios do tempo de feiúra, a paixão foi mais forte e explodiu naquele encontro definitivo.

No saguão do aeroporto Eduardo que fez questão de ver para crer, mal podia conter-se. Viu partir naquele avião para Europa sua noiva abraçada e feliz com uma mulher, e essa mulher linda não lhe era completamente estranha, era mesmo linda, como jamais viu outra mulher assim.

9 comentários:

Cleyton Cabral disse...

Gostei daqui. abs.

Cris França disse...

quero a continuação...rs

me lembrou um filme da Rene Zewellger.

já pensou que tipo de escritor que ser? se filmes ou de novelas? rs

bjs

Anônimo disse...

Muito bom!

beijo

Simplesmente Outono disse...

Saudade dos teus olhos sobre minhas letras. Espero por tua visita, ansiosamente.
Com carinho e folhas secas.
Simplesmente Outono.
Ps.: também falei sobre resquícios, porém os meus trazem alguns angustiantes reminiscências atreladas.

Simplesmente Outono disse...

Saudade dos teus olhos sobre minhas letras. Espero por tua visita, ansiosamente.
Com carinho e folhas secas.
Simplesmente Outono.
Ps.: também falei sobre resquícios, porém os meus trazem algumas angustiantes reminiscências atreladas.

RAFAEL disse...

gostei...

abração João, e obrigado pela visita...

Richard Mathenhauer disse...

Aí de cima do Pé de Feijão saem coisas muito boas! Diria, gigantescas! Continua a manda-las aqui pra baixo!

Abraços,

Mayson Laércio disse...

Opa, gostei...

voltarei para subir no pé de feijão mais vezes!

Abraços

Clenio disse...

Oi...

Só pra dizer que não abandonei meu blog, não...
É que a vida tá difícil: curso de teatro, academia, peça nova em andamento, trabalho e dois blogs não é pra qualquer um hehe. Aliás, ainda não te vi no meu blog número 2...
Bjos

Clênio
www.lennysmind.blogspot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

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