segunda-feira, 19 de julho de 2010

ACIDENTE GEOGRÁFICO (DUETO)


Dizia-se que aquela montanha era habitada por uma estranha forma de vida.

Embora toda a história parecesse uma lenda, ninguém na cidade, que se estruturou ao pé da montanha, era capaz de desmenti-la ou confronta-la. Preferiam simplesmente ignorar ou abstrair a angustiante peculiaridade que envolvia aquele enorme acidente geográfico que protegia toda região dos fortes ventos vindos do norte.

Antonio acordou naquela manhã decidido a acabar de uma vez por todas com o mito legado das gerações antecedentes. Típico da idade ele não aceitava aquela subserviência a que toda cidade resignava-se. Ele, que mal começava a ser um homem, tinha mais coragem, ou menos juízo, que todos os varões da região.

Teve que manter a decisão em sigilo. Se soubessem dos seus planos, certamente o demoveriam, agora para Antonio o confronto com o desconhecido era uma questão de honra.

A noite chegou gelada, ele foi sôfrego até o começo da trilha na base da montanha, lugar de onde poucos ousaram ultrapassar. Menos de dez passos adiante, Antonio desaparecia na mata. 

A medida em que entrava na mata para começar sua escalda, sua mente o traia criando monstros a sua volta. A cada passo sentia seu coração acelerando.

Arbustos ganhavam formas assustadoras, como seres de outro mundo. Depois de tantos sustos, Antônio resolveu parar ali mesmo e tentar descansar. Contudo o sono não veio, passou a noite ouvindo os muitos barulhos do lugar, até mesmo uma folha que caia era possível escutar, ele estava mais alerta do que nunca.

Assim que o sol nasceu, olhou ao redor e viu que sob a luz do dia a mata nada tinha de assustadora, era hora de prosseguir e desvelar aquele mistério.

Após algumas horas finalmente alcançou o topo da montanha, e começou a rápida descida pela face oposta. Depois de longa caminhada, já era novamente quase noite e a medida que se aproximava do pé da montanha ouvia barulhos, vozes, mas desta vez não eram barulhos assustadores mas sim de pessoas, cachorros e musica. 

Seus olhos pareciam não acreditar no que viam, embora semelhante a sua aldeia a riqueza desta era algo desconcertante. Diante dele algumas pessoas o olhavam com o mesmo choque nos olhos. 

Antes que Antonio pudesse estabelecer qualquer tipo de contato com seus recém descobertos vizinhos, um senhor de pele morena e cabelos brancos tomou a frente e o conduziu a uma das casas mais rica e bela da vila. No caminho, Antonio estarrecia-se com a riqueza daquele lugar, tudo era muito bem acabado e o luxuoso, completamente diferente da realidade do seu lado da montanha. Ao longe conseguiu avistar a extensa plantação que deveria abastecê-los. – O que vocês cultivam aqui? – perguntou ao senhor sem obter respostas. Lembrou que na sua aldeia o terreno era de difícil cultivo.

Já na luxuosa casa, o velho se apresentou como Dagoberto, e certamente era o mais antigo morador dali. Antônio contou a ele de onde vinha e a lenda sobre a montanha. Dagoberto cioso acendeu um charuto, em seu rosto não havia sinais de surpresa.

O velho serviu ao visitante uma taça com um tipo de vinho que eles mesmos produziam ali. O sabor daquela bebida era mesmo irresistível. Finalmente acomodado, ele sentiu que a verdade seria revelada.
Antonio ouvia com atenção, o vinho foi o combustível ideal para que ele embarcasse na história que o velho começava a contar.

- Eu era uma criança... – suspirou o velho – todos nós vivíamos aqui, neste lado da montanha. Os fundadores da aldeia eram irmãos, mas pensavam de forma muito diferente... eles não conseguiriam viver muito tempo juntos, no mesmo lugar!

Antes que a taça fosse completamente esvaziada Antonio sentiu um arrepio pelo corpo e logo uma estranha tontura. Em pouco tempo suava como nunca antes. Não pode levantar-se, nem mesmo pedir ajuda. Dagoberto percebeu seu estado, mas prosseguiu contando a história, tudo estava absolutamente dentro do previsto.

A extensa plantação que Antonio avistara era a fonte de riqueza da aldeia, Erythroxylon coca. Sua venda rendia aquele povo quase isolado todo seu sustento. No entanto esse segredo deveria ser preservado. Na época da fundação, os que se opuseram a esse cultivo ilegal foram desterrados e estabeleceram-se do outro lado da montanha, o pacto de segredo foi instituído então.
Toda vez que alguém tentava descobrir o que de fato acontecia nas prosperas terras do lado norte da montanha, eram muito bem recebidos por Dagoberto. O vinho, no entanto, tinha mais que finalidade de receber bem os estrangeiros. O vinho que produziam ali calava para sempre os visitantes e perpetuava o segredo e o sustento das gerações que viriam. 

Antonio juntou-se aos outros curiosos, seu túmulo sem identificação nunca foi visitado.


MAKING OF:
Para quem ainda não conhece, DUETO é uma série de contos aqui do blog, o diferencial é que eu começo escrevendo uma história qualquer e convido algum amigo para continua-la, sem nenhuma combinação.

Esse DUETO é muito especial. É a primeira mulher que divide comigo esse espaço, e embora tenha levado mais de 12 meses, o conto finalmente nasceu.
Falando em nasceu, este conto é dedicado a essa minha amiga e colega muito espacial, PRISCILA, que há menos de 3 dias deu a luz a duas priscilinhas: Júlia e Gabriela. Pode-se dizer que nós quatro escrevemos esse conto.

Vale dizer que esses contos são publicados em sua versão ligth. Eu, como blogueiro, sei que textos muito extensos são mais difíceis de serem aproveitados nesse veículo de comunicação. ACIDENTE GEOGRÁFICO tem uma versão mais detalhada, mais caprichada, mas sei que para 'fast food' essa versão é suficiente e ficamos felizes por poder partilha-la.

Obrigado Priscila pela participação, e muita, muita felicidade com tuas novas filhinhas!

5 comentários:

railer disse...

que bebês lindos! parabéns para a mãe, saúde para todos!

Richard Mathenhauer disse...

Ehhh, o Eldorado do Elixir da Felicidade! rs

(...)

Quanto à sua amiga mamãe e às gêmeas, que sejam abençoadas!

Abraços aos quatro,

j.qualquercoisa disse...

Texto muito belo, caro João. Adoraria ler a versão menos light.

Abraços

Simplesmente Outono disse...

Que estas lindas guriazinhas sejam motivo sempre de muitas e muitas felicidades, onde certamente já são.
Sumi por motivos que independeram de minha vontade. Acho que posso dizer que já estou de volta.
Folhas secas de uma estação que muito te respeita, Simplesmente Outono.

António Rosa disse...

Belíssimo texto! Saudações.

Parabéns à mãe e bebés.

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